verde

Ontem eu tive sono o dia todo, mas quando chegou a hora de dormir, eu não queria dormir. EU NÃO QUERIA. Não sei se não querer dormir é insônia, talvez seja. Mas eu não queria dormir porque eu estava entediada, eu queria sair do tédio.

Eu estou em casa, sem trabalhar fora, há uns dois anos ou mais. Não quero fazer as contas. Então quando a quarentena começou e as pessoas começaram a reclamar, eu já estava em vias de superar o tédio de ficar em casa. Primeiro porquê estava voltando a buscar emprego, segundo porque eu já tinha entendido que não HÁ O QUE FAZER pra sair do tédio que ficar em casa proporciona.

Você pode ir se iludindo com lives, séries, livros, cursos grátis, redes sociais. Você vai acreditar, durante algum tempo, que isso é bom, chamada de vídeo mata a saudade de ver seus pais, amigos, sei lá quem você quer ver. Depois, com o tempo, isso vai perdendo a cor, você vai perceber que apesar de ser uma possibilidade, é como transar pela internet. Não é só um pouco diferente, é OUTRA coisa. E vontade de chocolate a gente não mata com barrinha de cereal. O desejo do chocolate continua lá, latente. E quanto mais tempo você passa longe dele, mais teia de aranha, mofo e traças vão se acumulando. (estou falando de isolamento social ainda mesmo, não de sexo, embora caiba, rs).

Eu olho para cursos on-line como olho para uma barra de cereais, sabe? Em algum momento talvez isso aconteça com muita gente, como eu vou saber? Mas honestamente torço para que não dê tempo. Mas comigo já aconteceu, então caí na angústia. Sei que estou angustiada quando sinto minha garganta apertada, uma vontade de enfiar a mão no peito e arrancar algo fora, como se revirar do avesso, sei lá. É algo bastante incômodo, triste. E é enorme. Me deu vontade de sair pra caminhar, eram 1h30 da madrugada, muito frio e eu sabia que ia ver uma rua vazia e correr risco de vida, desisti.

Fiquei pensando em como as redes sociais são um lixo. Em como o Twitter não deixa mais você controlar o que quer ver na timeline (eu sei que faz tempo) e a gente ainda quer usar essas coisas pra se comunicar com os outros, urgh. Eu tenho ódio das redes sociais porque elas usam essa máscara de “informação” e “conexão”, enquanto alimentam justamente o oposto disso, vivem da individualidade, pra vender produto. E essa opinião me faz sentir sozinha, me parece que tá todo mundo ali feliz, comprando a ideia, menos eu.

Ontem foi aniversário do Freud. Eu nem comentei nada sobre isso, a psicanálise está a cada dia mais distante de mim. Eu olho para os livros na minha estante e penso no que vou trabalhar quando essa pandemia acabar. O que vou ter que fazer pra ter algum dinheiro e resolver as n coisas que eu tenho pra resolver. Fico com raiva e confusa.

A raiva ocupando um grande espaço em mim. Às vezes me percebo com raiva de coisas bobas que as pessoas fazem, e aí só de pensar um pouquinho melhor nelas, percebo que é tudo raiva de mim mesma. E muito dessa raiva, na verdade, é culpa.

leituras da morte

Há alguns meses, não lembro exatamente quando, uma moça tweetou que o e-book “Desenhos”, da Sylvia Plath, estava em promoção. Estava R$ 7,90 e eu, sem nem me lembrar porquê, não resisti a essa promoção e comprei o e-book. Fui checar o preço nos pedidos da amazon e vi que comprei no dia 31 de Janeiro.

Antes disso, meses ou ano antes, eu abandonei a leitura do seu romance “A redoma de vidro”. Eu não estava bem e toda a fama de suicida de Plath me irritava. Estava lendo o livro com isso em mente (dá pra ser diferente?) e pensando que o livro não tinha nada demais, pensando que ela só conseguiu notoriedade pelo drama suicida. E, verdade seja dita, me identifiquei com algumas coisas, fiquei péssima por isso e deixei o livro de lado, com medo.

Muito tempo de análise depois, sei que estou num lugar minimamente seguro e distante do lugar de Plath. Nada é certo quando se fala de vida e morte, mas sei que construí um caminho, torto, mas um caminho, e estou caminhando pra longe desse lugar, um passo de cada vez.

E aí aconteceu a pandemia. E eu, sem vontade de ler nada, nada. Estava pensando que não sabia porquê fui ler “Desenhos” essa semana, mas como não sabia do que se tratava, achei que eram desenhos apenas. Eu abri o e-book para VER os desenhos e não para LER, rs.

Li “Desenhos”, me lembrei do abandono do “A redoma…”. Pensei que queria conhecer algo mais dessa mulher, e não quis tentar “A redoma…” de novo. Talvez a proximidade da morte e os pensamentos mais frequentes por conta da pandemia, me deixaram com vontade de “acertar as contas” com o meu abandono de Plath, não mais fugir da sua literatura, que é tão atravessada pela morte.

E aí estou lendo “Ariel”. À princípio estranhei essa escolha. Poesia? Sylvia Plath? Mas escrever esse texto me fez entender alguma coisa. Não há mais espaço para fugir do que é difícil.

todas as escolhas são ruins

Hoje bateram no meu portão pedindo comida. 😦

Continuo revisando e transferindo fotos do meu HD externo para a nuvem e me deparei novamente com a saudade sempre presente do vôlei. Sinto saudade das pessoas? Sinto. Mas a de jogar é maior. (pra ver as pessoas basta marcar. jogar é mais difícil de conseguir. aonde vou arrumar 11 pessoas, quadra, etc, pra satisfazer esse desejo?)

A saudade do vôlei aumentou depois que comecei o Home Office, quando mudei pra cá, nesse bairro ainda mais distante da minha família. Eu realmente amo as pessoas, as gentes, os abraços, as risadas. Amo a equipe, estar junto. Mais do que isso, eu amo a troca: de experiências, de aprendizados, de olhares.

2005. Sou a última à esquerda, sentada.

Agendas seriam perfeitas se o final de semana tivesse o mesmo espaço que os outros dias.

Eu cansei de contar os dias da quarentena.

Hoje eu tentei pedir gás, eu tenho dois fornecedores salvos no celular, nenhum atendeu. Vou pesquisar receitas de fazer na panela elétrica e colocar a cafeteira elétrica pra jogo. Economizar um pouco do que tem de gás. Vai saber?

Todas as escolhas são ruins.

Abner está fazendo torta de limão. Cozinhar é o jeito dele se divertir enquanto não pode pescar. Eu já fiz bolo de cenoura e de laranja.

Minha menstruação, que é sempre tão reguladinha, adiantou esse mês. Tive um ciclo de 26 dias, com cólicas fracas dessa vez.

Estou lendo “Desenhos” da Sylvia Plath. O livro me pegou e é curtinho, quando percebi já estava nos 70%. Vai ser daquelas leituras que eu vou esquecer na semana seguinte.

Parei de pensar em evitar café e de pensar em comer em horários certinhos como eu estava tentando antes de começar a quarentena. Eu não estava “cumprindo” essas regras, mas estava me recriminando por isso, tipo “nossa, deveria tomar menos café”, “nossa, deveria comer no mesmo horário”, mas são coisas tão pequenas agora.

O café talvez eu possar beber bastante se implantar atividades físicas na minha rotina. Talvez os exercícios ajudem no sono e salvem meu café.

Eu sei que estou me distraindo nessas pequenezas porque não posso controlar o que importa. Eu sei, eu sei.

bege

Cada foto que vejo é como uma agulha que entra na minha traqueia.

Eu sou a pessoa que ignorou o conselho de decidir e experimentar e ficou pensando tempo demais nas escolhas. E agora, como se já não bastasse tanto tempo perdido, sou a pessoa que remói isso, incessantemente.

Não sei donde vem tanto medo. Mas há muito medo em mim.

Os cabelos brancos estão aparecendo e livros que eu queria ler em 2014 não foram lidos.

Sei que fiz algumas coisas, li outros livros, gastei tempo com outras bobagens, até aí é da vida. Até aí todo mundo tá em falta.

Mas a sensação de estar parada, a sensação de enclausuramento, de estar fechada ao mundo – apesar de escrever blog, de parecer me entregar comentando bobagens vergonhosas no twitter – não passa.

Me sinto presa e fui eu mesma que me tranquei e joguei a chave fora. Não há livro, música, porra nenhuma, que me impacte profundamente, que me desloque, nada pra me deixar obsessiva. Tudo é bege.

Me falaram duas coisas na infância e eu fiquei assim, paralisada? Não dá pra acreditar que acreditei nessas coisas durante tanto tempo. Já não consigo mais acreditar que foi “só” isso. Talvez tenha sido, não sei. Só sei que quero jogar fora e não é possível.

Cada tentativa de descarte, me complico. Estranho a estranha que me habita, repenso, repenso, desisto. Me canso, fico exausta.

Por fora, sou desenvolta. Ninguém na família poderia dizer que não estou bem. Mas não estou há alguns anos.

E agora, um vírus está consolidado na esquina ali em frente, eu flutuo. É bom pra quem esteve presa, é bom pra quem esteve enclausurada. Flutuar é melhor que a paralisia. Eu sou uma bolha de sabão num banheiro mofado, sem janelas.

o meu racismo

Existem alguns momentos na vida em que as fichas do racismo (do nosso e dos outros) vão caindo. Não é um momento só, como uma revelação espiritual. A gente faz anos de terapia, sofre muito, quebra a cara, assiste BBB, aos poucos começa a ver o racismo entranhado na nossa forma de ver as pessoas. Não estou falando de uma pessoa que chama a outra de macaco, tô falando do racismo que todos nos aprendemos, aquele que nos governa a atravessar a rua quando vemos um negro ou negra vindo em nossa direção.

Outro dia conversando com uma amiga por podcasts via whatsapp, ela me perguntou “por que você se importa tanto com a opinião dessas pessoas?”, questionamento que já havia passado diversas vezes pela minha cabeça, mas segui não conseguindo responder até agora.

Ontem, vi uma cena do BBB passar na timeline do meu twitter. Thelma, uma participante negra do programa foi rejeitada pelo Daniel, que falou sobre o monstro. Ela estava de costas pra ele e não viu sua cara de deboche, mas o jovem branco, loiro, modelo e imaturo de 21 anos disse “a gente não dá monstro pra quem é nosso amigo”, duas semanas depois de ter dado o monstro pra Thelma, que pelo que tenho visto até agora (não acompanho o BBB desde o começo, então posso estar enganada em alguns aspectos), se esforça bastante para ser aceita pelo grupinho branco que ele faz parte, não que ela tivesse muita opção. São dois participantes negros, número que não dá pra formar um grupinho, grupinho no BBB só de gente branca mesmo.

Assisti essa cena revivi muitas coisas, principalmente o episódio que aconteceu na minha infância, que hoje sei ser atravessado pelo racismo, tudo é atravessado pelo racismo estrutural no Brasil. No entanto, infelizmente, esses comportamentos continuam na vida adulta. Inconscientemente, nós negras e negros, buscamos muitas vezes aprovação e nos esforçamos para receber migalhas de afeto de pessoas brancas.

Então eu entendi. Acredito que daria pra responder minha amiga podcaster com isso. Essas pessoas, cujas opiniões sempre foram muito importante, são todas brancas. É o que elas tem em comum, todas elas. E, apesar de estarem incluídas na criação racista-nossa-de-cada-dia, o racismo que mais importa aqui é o meu, que continuo dando muito mais valor a companhia dessas pessoas do que elas, de fato, têm.

Muitas vezes nos rastejamos e ganhamos apenas migalhas de afeto. Pra completar, quando nos cansamos, damos um basta, o outro argumenta que estamos pedindo demais. Finalizamos nos sentindo arrogantes, duros, mesmo que a pisada de bola que desencadeou tudo tenha vindo do outro, uma, duas, n vezes. Nos sentimos culpados e, na tentativa de não acabar isolada ou sozinha, mas também pelo afeto que nós sentimos, agimos estupidamente, pensando em dar novas chances à amiguinha, mesmo que as afinidades sejam ínfimas entre nós, mesmo que ela desdenhe de uma das coisas que a gente mais gosta na vida. Mesmo que ela encene que quer nos ver para dar um abraço de aniversário, já que estamos pertinho da casa dela, mas acabe preferindo dormir.

É isso que o meu racismo faz. Me faz acreditar que preciso dessas pessoas, que talvez não consiga fazer nenhuma amizade melhor, me faz esperar pouco, me contentar com pouco. O meu racismo faz com que eu me veja como uma pessoa arrogante simplesmente por desejar ter uma amizade que seja mais do que um encontro anual. O meu racismo faz eu me nivelar por baixo.

sedentarismo, o melhor aliado da quarentena

Hoje consegui ligar e falar com a minha avó. Ela está relativamente bem, isso me deixou bem. Não a vejo há muitos meses porque moramos longe e o tempo passa, eu me culpo, fico envergonhada de estar sumida, o que faz com que eu adie ainda mais a visita. E agora simplesmente não posso ir lá.

Todo mundo tomou baldes de água fria com essa quarentena, né? Planos, planos, planos e frustrações e mais frustrações, dos mais diversos tipos, adiamentos, cancelamentos, sonhos muito desejados interrompidos, pelo menos por enquanto.

Fiz um pouquinho de exercícios hoje de manhã, tentando estabelecer uma rotina, começando leve. Semana passada fiz uma aula do canal Playdance por 10 minutos e fiquei com dores no corpo por três dias, hahaha, então hoje eu comecei pensando em pegar MUITO leve.

Fiz 5 minutos da aula que me destruiu semana passada e inventei de usar minhas caneleiras empoeiradas. Agora estou com dores próximas à virilha e mal consigo andar. Sedentarismo contribuindo pra minha quarentena com sucesso.

A dor começou agora no fim da tarde. No início da tarde fui numa lojinha aqui perto de casa, dessas que são um misto de utilidades e doces. Comprei algumas guloseimas e uma caixa de plástico para o Abner fazer um “laguinho” para peixes. Tinha bastante gente na lojinha, mas nada excessivo como costumava ser. O sacolão estava cheio, desisti de passar lá. Cheguei em casa e higienizei todas as embalagens com álcool.

Lembrei desse mantra que minha mãe me mandou uma vez. Ele é calmante pra mim. Não tenho religião nenhuma, mas músicas são boas, e o mantra nesse caso me deu algum alívio. Não sei o motivo exato, mas chorei cantando junto e me achei bem ridícula. Acho que foi uma emoção por tudo que tem acontecido mesmo.

Fiquei sabendo, através de whatsapp, que a polícia está fechando bares pelas periferias. É algo necessário, mas como se sabe, a polícia é truculenta em grande parte das ações, e isso me entristece tanto, tanto. O povo das comunidades é o mais vulnerável, o cara tá com o bar aberto porque é o ganha-pão dele. Queria que as pessoas tivessem mais empatia umas com as outras.

Momento BBB: A Thelma mereceu demais ganhar a prova do líder. Estou com raiva da Mari. Ela ter falado que deixou a Thelma ganhar me deixou muito puta.

Achei que escrever seria muito mais terapêutico do que tem sido, mas pretendo continuar com esses registros aqui, conforme der vontade.

Sigo fazendo aulinhas de inglês no Duolingo, lendo nem que seja por míseros 30 minutos, tentando me exercitar, trocando áudios de desabafo com família e amigos, acompanhando BBB (peguei agora pela metade para ver) e torcendo para que o próximo eliminado seja… o bolsonaro. Rs, parece que estou brincando com coisa séria, mas é que o nome dele passou pela minha cabeça quando pensei em eliminação, do tanto que quero que essa criatura suma.

E você? Como está? Quer conversar? Comente aí se estiver afim. 🙂

Beijo